6x1 é a Senzala Moderna
- WR Express
- 18 de mar.
- 3 min de leitura
Por: Pai Caio

✅ 18/03/2025 | 10:57
Por décadas a fio, trabalhadores brasileiros, em uma impressionante variedade de setores, têm enfrentado jornadas extenuantes sob o regime de escala 6x1. Essa estrutura laboral, que concede a esses profissionais apenas um dia de descanso por semana, é mais do que uma simples rotina; é uma herança de um passado marcado pela exploração, em que os direitos trabalhistas eram quase uma miragem. A discussão em torno da erradicação dessa prática transcende as fronteiras do sindical e da economia; ela se insere na luta mais ampla contra a chamada escravidão moderna. E, nesta batalha, os mais afetados são, em sua maioria, os trabalhadores negros, com as mulheres e os jovens das periferias enfrentando um peso ainda mais severo.
Imagine uma vida em que o tempo para descanso, lazer e convívio social é apenas um sonho
distante. A jornada 6x1 impõe uma realidade desgastante. Ela aumenta os riscos de doenças
ocupacionais, como a síndrome de burnout e problemas cardiovasculares. Além disso, reduz
a produtividade e compromete a segurança dos trabalhadores. Isso é especialmente em
setores críticos como transporte e indústria pesada.
Em nações que adotaram a redução da carga horária, como Suécia e Alemanha, os resultados
foram claros: um aumento significativo na qualidade de vida dos empregados e na eficiência
das empresas. Portanto, o fim da escala 6x1 deve ser visto não como um fardo para os
empregadores, mas como um investimento estratégico no bem-estar e na produtividade da
força de trabalho.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) descreve a escravidão moderna como
qualquer forma de trabalho forçado ou exploratório que priva o indivíduo de sua liberdade.
A jornada 6x1 está, portanto, enquadrada nesse conceito de escravidão moderna!?
Setores como comércio, serviços e indústria são os mais afetados por essa carga horária
excessiva. Muitas vezes, os funcionários se veem pressionados a cumprir jornadas
extraordinárias sem a devida remuneração, perpetuando um ciclo de exploração que os
aprisiona em uma lógica de subsistência, sem perspectivas de evolução.
A adoção de jornadas mais equilibradas, como a escala 5x2 ou a semana de quatro dias úteis,
já é uma realidade em vários países e empresas. Essa mudança não só promove a qualidade
de vida, mas também pode impulsionar a economia, criando mais empregos e
redistribuindo a carga horária entre os trabalhadores.
No Brasil, é imperativo que a discussão sobre o fim da escala 6x1 seja ampliada, envolvendo
sindicatos, empresas e legisladores. A transição para um modelo mais justo não representa
prejuízos para os empregadores; ao contrário, é uma oportunidade de humanizar as
relações de trabalho, assegurando que o desenvolvimento econômico ocorra sem a
perpetuação da exploração.
Um aspecto frequentemente esquecido no debate sobre a jornada 6x1 é o impacto direto
que essa carga horária excessiva tem nas comunidades de terreiro. Religiões de matriz
africana, como o Candomblé e a Umbanda, demandam tempo e dedicação, e a rotina desgastante imposta pelo trabalho pode inviabilizar a plena participação dos fiéis nessas práticas, comprometendo a continuidade das tradições e a estrutura das casas religiosas. Além disso, muitos líderes religiosos, como mães e pais de santo, equilibram suas funções espirituais com empregos formais. A falta de tempo para a comunidade prejudica o atendimento espiritual e o suporte social dos terreiros. Esses espaços são importantes para o acolhimento, resistência cultural e fortalecimento identitário da população afrodescendente. A redução das jornadas de trabalho, sem perdas nos ganhos e salário, poderia permitir um engajamento mais profundo dos trabalhadores com suas crenças e tradições, garantindo que a espiritualidade não seja sacrificada em nome da produtividade. Assim, o fim da escala 6x1 não é apenas um avanço trabalhista, mas uma conquista pela liberdade religiosa e pela preservação do patrimônio cultural afro-brasileiro. Portanto, a luta pelo fim da escala 6x1 representa um avanço civilizatório. É um movimento que desafia a naturalização do cansaço crônico em prol da dignidade humana, distanciandose de práticas que, embora legalizadas, possuem raízes na exploração. A busca por jornadas mais justas é, essencialmente, uma luta contra as novas formas de escravidão e pela valorização da vida fora do ambiente de trabalho. É hora de reescrever essa história e construir um futuro onde o trabalho não seja sinônimo de sacrifício, mas de dignidade e liberdade.

Pai Caio
Caio Bayma nasceu na Baixada Fluminense, Nilópolis, foi morar no Morro dos Macacos por conta da proximidade com o trabalho, faculdade e atuação no movimento social, hoje reside no centro do Rio de Janeiro. Graduando em Matemática, integra a equipe do Observatório Adolescente (OPPA /UERJ) no eixo de religiosidade e atuou como primeiro extensionista na Superintendência de Saberes Tradicionais da UFRJ. [+ informações de Pai Caio]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |
A mentalidade colonialista ainda permanece no Brasil atendendo aos interesses do capital. A escala 6x1 é uma escravidão fantasiada de "sistema de trabalho" onde o trabalhador vende sua força de trabalho e não é reconhecido pelo patrão. Nessa lógica essa escravidão do século XXI impossibilita esses mesmos trabalhadores de se dedicarem às suas religiões e não é por acaso. Afastá-los de suas crenças, principalmente as de matriz africana, é o mesmo que retirar deles a sua força e o seu contato com sua ancestralidade, deixando apenas às essas pessoas o contato com discursos que nada acrescentam.