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Grupo de teatro “Roma Negra” participa do Agogô Festival, no Benin

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 20 de mar.
  • 4 min de leitura

Por: Tatiana Golfetto

Foto: Edilson Araujo
Foto: Edilson Araujo

20/03/2025 | 12:03


“Difícil descrever por palavras, foi um misto de emoções muito intensas”. Assim começa o relato da viagem de Edilson Araujo ao Benin. No meu último texto para o canal, contei a história da fundação de sua companhia de teatro “Roma Negra” e do trabalho que ele realiza em Roma e em outras cidades da Itália. Há quase dez anos, Edilson e o seu grupo participam de projetos em diversas escolas romanas e organizam espetáculos com temática relacionada às religiões de matriz africana, espetáculos que são também ponto de partida para abordarem questões como migração, racismo e solidariedade, abrindo espaço para um importante diálogo com a sociedade italiana. Graças a essa visibilidade, o grupo recebeu o convite do presidente do balé nacional de Cotonou para participar da 16a edição do Agogô Festival, um festival internacional de dança em Ouidah, no Benin, que aconteceu entre os dias 16 e 19 janeiro de 2025.



Os preparativos para a viagem começaram em novembro do ano passado, quando o “Roma Negra” realizou um evento em Roma para arrecadar fundos. Na ocasião, apresentaram um espetáculo com foco na história dos agudás, homens e mulheres negros e libertos que, entre os séculos XVIII e XIX, saíram do Brasil para voltarem à África.


Por uma série de motivos, somente Edilson e Monica Gori, membro do grupo e sua esposa, puderam embarcar nessa viagem com a tarefa de representar toda a companhia. Eles ficaram três semanas no Benin, do dia 30 de dezembro 2024 ao dia 23 de janeiro. A cidade de Cotonou serviu de base para os dois e eles aproveitaram a ocasião para conhecer outros lugares do Benin, como a cidade de Abomey (Abomé), antiga capital do Reino de Daomé.


Durante essas três semanas, Edilson e Monica visitaram projetos e escolas, públicas e privadas, em área urbana e zonas mais afastadas, onde tiveram a ocasião de organizar atividades lúdicas e jogos teatrais para crianças e adolescentes. Em Cotonou, foram à sede de uma associação italiana chamada “Amici di Francesco” (amigos de Francisco) que existe desde 2001 e que dá assistência para 28 crianças órfãs no país. Visitaram também uma outra sede do projeto em Dassa-Zumé, próximo de Abomé, onde puderam trabalhar com mais de duzentas entre crianças e adolescentes. Curiosos com a sua presença, Edilson conta que o fato de não falarem a mesma língua que ele não atrapalhou as atividades.


Foto: Edilson Araujo
Foto: Edilson Araujo

Além da oportunidade de realizar em um novo contexto o trabalho que já realiza em Roma, Edilson pôde tecer novos contatos e amadurecer antigos, criando linhas de conexão entre o seu trabalho e a sua companhia na Itália e o Benin. Conheceu um grupo de capoeira de Cotonou e fez contatos com imigrantes artistas brasileiros com quem teve a ocasião de colaborar. Visitou espaços culturais e teatros, possíveis locações para apresentações futuras no país. Planeja voltar em agosto e, com toda a sua companhia, no próximo ano para mais uma edição do Agogô Festival. Como os outros membros do Roma Negra não estavam presentes, não puderam apresentar um espetáculo durante o festival, mas, como conta Edilson, participaram de outra maneira: tiveram a chance de ver a arena do festival antes de ser inaugurada, montada próxima à Porta do Não Retorno, famoso monumento em memória dos milhares de escravizados que embarcaram no Porto de Ouidah em direção às Américas. Edilson e Monica também assistiram a alguns ensaios e às apresentações.


No tempo em que estiveram no país, puderam ir também ao Vodun Days, um dos mais importantes festivais internacionais de música, espiritualidade e cultura Vodun. Ali assistiram a apresentação de um outro grupo brasileiro, o Balé Folclórico da Bahia, uma das atrações do segundo dia do evento.


A participação em festivais pelo continente africano de grupos brasileiros ligados à cultura e religiosidade de matriz africana é cada vez mais frequente. Edilson, nessa ocasião, foi também convidado a outro festival, o “Festival das Divindades Negras”, que iria acontecer no Togo, mas não pôde ir por questões organizativas.


Para Edilson e sua companhia teatral, a viagem possibilitou a criação e o fortalecimento de laços e de conexões com pessoas, com o Benin e, acima de tudo, com suas raízes. Assim, participou de rituais, visitou florestas sagradas e uma montanha protegida por Ogum. O fortalecimento dessas conexões também passa por um reconhecimento: “Roma Negra” ganhou um troféu de honra do Agogô Festival, que foi entregue pelas mãos do prefeito de Ouidah e do organizador do evento.


De volta à Itália, Edilson já pensa em partir de novo. Um novo espetáculo já está sendo montado, recheado de ideias e imagens que trouxe consigo do Benin. O tema será tecnologias ancestrais, focando nos meios de comunicação ancestrais com o sagrado, como o jogo de búzios. Além disso, planeja criar um filme/documentário com as fotos e as imagens que gravou no Benin como uma forma de compartilhar um pouco da viagem com o público que colaborou no financiamento à sua ida ao Benin. O ciclo se fecha, assim, em Roma, novamente no palco.


Para conhecer mais o trabalho do “Roma Negra” e ajudar na viagem ao Benin, siga as

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Tatiana Golfetto - AxéNews

Tatiana Golfetto

Antropóloga. Docente na John Cabot University, Roma, Itália. Doutora em História das religiões/antropologia (Universidade de Roma Sapienza). Desde 2013, acompanha e pesquisa a expansão das religiões de matriz africana na Europa, especialmente na Itália. É membro de Jacarandá, associação de brasilianistas na Itália.



E-mail de Tatiana Golfetto: tatigolfetto@hotmail.com

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