Reflexões sobre os Ritos de passagem
- WR Express
- 5 de mar.
- 2 min de leitura
Por: Mãe Jaci

✅ 05/03/2025 | 18:26
Pensei em não escrever a coluna este mês, devido a tantos compromissos, até que recebi a notícia do falecimento de uma grande referência do Candomblé no Rio de Janeiro e em São Paulo. Observando as inúmeras mensagens de despedida nas redes sociais desde as primeiras horas, me ocorreu um pensamento sobre o quanto estamos, de fato, preparados para deixar o mundo na forma como o conhecemos.
Fui tomada por uma profunda tristeza.
Enquanto parte de mim lamentava a partida de um irmão — apesar de acreditar que ele já havia sido bem preparado —, a outra parte se perdia em um pensamento distante.
Já é possível perceber, mesmo sob um olhar superficial, o esvaziamento das religiões de matriz africana. Onde antes se viam famílias inteiras, hoje há apenas a fé resistente de um iniciado que, possivelmente, não terá seu rito de passagem respeitado por conta do racismo religioso no seio familiar.
E a quem cabe estar preparado para essa decisão?
Talvez precisemos, nós, sacerdotes, dar um pouco mais de atenção ao tema durante o desenvolvimento dos iniciados, para que não percamos também nossos ritos de passagem que, independentemente das terras de origem, são a complementação do nosso compromisso com o sagrado. Além disso, trazem o conforto necessário a quem fica.
Adotar o costume de conversar sobre racismo religioso dentro da Roça pode ser uma abordagem interessante para despertar a atenção dos iniciados que enfrentam essas dificuldades em suas próprias casas.
Afinal, como sempre gosto de repetir: se o futuro é ancestral, cada iniciado por minhas mãos será um ancestral do meu axé.
E, como dizia minha velha avó: "Começou, termina." Demorei a entender que não era sobre pessoas.
Que as águas de Mãe Oxum aquietem os corações que sofrem com a dor da despedida.
Axé.

Mãe Jaci
Jacineide Soares é Mãe Jaci, Sacerdotisa do Candomblé, formada em Gestão de Recursos Humanos pela Unigranrio. Empreendedora Cultural, escritora, palestrante, fundadora do Coletivo Colo de Mãe Preta e do CHAO - Centro Humanitário Abebé de Ouro. Presidente estadual do MOVIDADE - Movimento Democrático Afrodescendente pela Igualdade e equidade racial, e dirigente do Terreiro Casa do Abebé de Ouro, no município de Maricá, RJ.
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |
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