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Sem Orixá, sem carnaval!

  • Foto do escritor: WR Express
    WR Express
  • 26 de fev.
  • 3 min de leitura

Por: Pai Caio

Foto: Reprodução
Foto: Alex Ferro | Riotur

26/02/2025 | 08:45


O Carnaval do Rio de Janeiro é, acima de tudo, uma expressão cultural afro-brasileira que transborda dos terreiros e representa uma forma de resistência na preservação de saberes, além de ser a materialização do sagrado-profano que permeia nossa história. Dentre as diversas influências que fazem parte dessa festa vibrante, a herança das religiões de matriz africana se destaca como o pilar central, trazendo ritmo, cor e espiritualidade para as tradições carnavalescas.



Desde a época colonial, a presença africana no Brasil revolucionou o panorama cultural e religioso do país. Comunidades trazidas à força desenvolveram suas ideias e rituais, adaptando-se e se misturando com as tradições locais. Essa convivência deu origem a práticas religiosas como o candomblé e a umbanda, cujos elementos se entrelaçaram naturalmente nas manifestações artísticas e populares. No contexto do Carnaval, essa influência faz parte do seu DNA, onde a presença dos orixás e outros símbolos sagrados se traduz em coreografias e fantasias carregadas de significados que refletem uma cosmovisão africana sobre a natureza e a humanidade.


Dentro dos terreiros e comunidades, a musicalidade dos atabaques, os cânticos e as danças não são apenas rituais de devoção, mas também formas de resistência cultural. Essa expressão, que ressoa nas ruas e bairros, foi incorporada ao samba, a alma do Carnaval carioca. As escolas de samba, como protagonistas dessa festa, resgataram em seus enredos e alegorias narrativas que celebram a ancestralidade e os valores de uma cultura que, mesmo diante de adversidades, racismo e violências institucionais, conseguiram resistir e florescer.


Além da riqueza estética e artística, a presença das religiões de matriz africana no Carnaval traz um forte componente social. Ela reafirma a identidade de um povo que, historicamente marginalizado, encontrou na cultura uma ferramenta poderosa para se afirmar e lutar contra o preconceito. Ao ocupar espaços de destaque nas festas e desfiles, os símbolos religiosos e os ritmos africanos promovem a inclusão e o reconhecimento da diversidade cultural brasileira. Em tempos de debates sobre identidade e igualdade, essa representatividade se torna ainda mais relevante, fortalecendo o sentimento de pertencimento e orgulho nas origens africanas.


Apesar de sua importância, a influência das religiões de matriz africana no Carnaval nem sempre foi devidamente reconhecida. Estereótipos e preconceitos históricos foram criados para marginalizar essas expressões culturais, que muitas vezes foram relegadas a papéis secundários. Contudo, o crescente debate sobre a valorização da diversidade e a redescoberta das raízes afro-brasileiras tem levado a uma reavaliação crítica e necessária. Organizações, artistas e estudiosos se mobilizam para preservar e difundir esses saberes, promovendo um Carnaval que honra sua essência plural e rica em significados.


É compreensível, ao olhar para a história colonial do Brasil, que surjam vozes de espaços que também frequentamos, “cansados” de enredos sobre Orixá, Nkisi, Vodun, Caboclos, Encantados e de nossos ancestrais, que desfilam na Sapucaí, a qual nós construímos com o caldeirão da praça onze embalado por referências como Tia Ciata, Zé Keti, Ismael Silva, Tata Tancredo e Maria do Batayo (todos filhos de Orixá). Para alguns, o Carnaval deve atender aos interesses dos patrocinadores e seus caprichos criativos, enquanto para outros, ele é parte de uma estratégia de sobrevivência e instrumento para disputa da narrativa que nos apaga (literalmente) durante o restante do ano. Se faz necessário reafirmar e reconhecer os verdadeiros protagonistas do carnaval e do samba.



Bàbé Ifálóba Ifálósèyí - AxéNews

Pai Caio

Caio Bayma nasceu na Baixada Fluminense, Nilópolis, foi morar no Morro dos Macacos por conta da proximidade com o trabalho, faculdade e atuação no movimento social, hoje reside no centro do Rio de Janeiro. Graduando em Matemática, integra a equipe do Observatório Adolescente (OPPA /UERJ) no eixo de religiosidade e atuou como primeiro extensionista na Superintendência de Saberes Tradicionais da UFRJ.   [+ informações de Pai Caio]


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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


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